Segundo Perry Anderson, a monarquia medieval da Inglaterra foi, sem dúvida, mais poderosa do que a da França. Esse fato confirma-se se levarmos em consideração as aventuras territoriais que este país empreendeu no continente, aventuras estas, que carregavam no seu bojo ambição e astúcia. A Guerra dos Cem anos, por exemplo, confirma esta afinidade da monarquia feudal inglesa pela expansão territorial.
No entanto, esta mesma monarquia que foi uma grande potência na idade média, com o advento da época moderna e a consolidação dos estados nacionais absolutistas, tornou-se obsoleta. Utilizando as palavras do próprio Anderson “a mais forte monarquia medieval do ocidente foi justamente aquela que produziu o absolutismo mais fraco e de menor duração”.
Outro fator que deve ser ressaltado em relação à monarquia medieval inglesa é que desde o século XIII existe o parlamento. Esta instituição de feição coletiva da classe dominante feudal inglesa limitava a atuação dos reis deste período, o que impedia uma maior centralização do poder. Após o reinado de Eduardo I no século XIII, ficou decidido que nenhum monarca poderia decretar estatutos sem a autorização do parlamento.
A monarquia feudal inglesa foi muito poderosa, isso devido principalmente a uma nobreza extremamente militarizada. Para Perry Anderson, ela diferenciava-se das demais pela sua cultura predatória e expansionista, como ele mesmo comenta, “nenhuma outra aristocracia feudal irradiou-se tão longe e tão livremente, enquanto conjunto de uma ordem, a partir de sua base territorial”.
Na virada do século XV para o XVI, com os Tudor no poder, especialmente Henrique VII, houve uma centralização do poder monárquico dentro da Inglaterra. Medidas como: limitar os privilégios privados, proibir as tropas particulares uniformizadas, subordinar o poder local ao poder monárquico, são algumas das ações que contribuíram para que pudesse ser plausível esta relativa centralização. Assim, Henrique VIII, no século XVI, herdou um poder executivo forte e com boas perspectivas de desenvolvimento.
Henrique VIII enfrentou alguns conflitos de grande importância para os desdobramentos históricos futuros de seu país, o principal deles foi o impasse com o Papa Clemente VII. Desavença essa oriunda do que Anderson chama de “crise matrimonial de 1527-28”, onde o Papa nega o pedido de divorcio do referido rei, a síntese de tal fenômeno foi o surgimento da Igreja Anglicana.
Para termos noção do que representou essa centralização citada acima, vou ceder a palavra ao próprio Perry Anderson, “Durante o seu período de vida, o poder pessoal efetivo de Henrique VIII no seio de seu reino foi perfeitamente igual ao de seu contemporâneo Francisco I na França”.
Nesta amplitude de complexidades e argumentos que alcançamos, surge uma pergunta que não quer calar: como explicar o declínio deste estado forte e centralizado ocorrido a partir da virada do século XVI para o XVII?
A tese do Anderson neste aspecto é a de que faltou na Inglaterra, “um aparelho militar substancial”. Enquanto monarquias absolutistas do continente fortaleciam-se e militarizavam-se, é o caso da Espanha e da França, a nobreza Inglesa, diferentemente dos tempos medievais, viu suas armas tornarem-se fracas e obsoletas.
Perry Anderson ressalta que “para as monarquias da renascença, a construção de forças militares na área metropolitana era uma condição indispensável à sua própria sobrevivência”. Este poder bélico era necessário, pois, agora ao contrário do que ocorreu nos tempos medievais, a ambição e astúcia estava no continente, assim as nações renascentistas sentiam-se altamente ameaçadas.
Já a situação bélica da Inglaterra neste período era muito complicada, pois, o transporte de milhares de soldados por mar até o continente, tornou-se caro e anacrônico. A Espanha e França não desenvolveram uma força bélica naval, o que deu aos ingleses nestes últimos tempos uma relativa tranqüilidade, fato que acentuou o desinteresse bélico por parte da nobreza.
Com a Elizabeth houve um desenvolvimento das técnicas de guerra, principalmente no sentido de ampliar o uso de armas de fogo e o aprimoramento dos navios de guerra. No entanto, “a inferioridade militar do absolutismo inglês, continuou a impedir qualquer expectativa expansionista no continente”, diz Perry Anderson.
E quando a dinastia dos Stuart assumem o poder e querem implantar um absolutismo que tinha como objetivo desprezar o parlamento e estender o poder central para além dos limites estabelecidos pelos Tudor, foi o momento culminante deste processo.
Não podendo concorrer com nações do porte da França e da Espanha, e enfrentando uma forte tensão política interna, principalmente por parte do parlamento que não aceitavam perder sua influência, a Inglaterra buscou encontrar outras áreas nas quais ela pudesse ampliar seu poder político, econômico e concomitantemente sua representação mundial, que visivelmente tornou-se debilitada no decorrer dos séculos XVI e XVII. Os países escolhidos para alcançar tal intento foram a Escócia e a Irlanda. Estas últimas tentativas de fortalecer e tornar o absolutismo inglês competitivo, novamente foram decapitadas com a revolução burguesa do século XVII.
Não podendo concorrer com nações do porte da França e da Espanha, e enfrentando uma forte tensão política interna, principalmente por parte do parlamento que não aceitavam perder sua influência, a Inglaterra buscou encontrar outras áreas nas quais ela pudesse ampliar seu poder político, econômico e concomitantemente sua representação mundial, que visivelmente tornou-se debilitada no decorrer dos séculos XVI e XVII. Os países escolhidos para alcançar tal intento foram a Escócia e a Irlanda. Estas últimas tentativas de fortalecer e tornar o absolutismo inglês competitivo, novamente foram decapitadas com a revolução burguesa do século XVII.
OTIMO
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