OS CAPITALISMOS DA TERRA: POUCOS SÃO OS ESCOLHIDOS!
Nós não vivemos no mesmo capitalismo em que vivem os bilionários da terra. O capitalismo é a principal fonte irradiadora das forças narcisistas presentes na nossa atual teia valorativa (social). Por forças narcisistas entende-se o cerne de qualquer sistema estruturado de valor, que consiste na tendência de querer legitimar-se como VERDADE HEGEMÔNICA. Temos a falsa percepção de que um sistema estruturado de valor (família, estado, capitalismo, sociedade e etc) é uma entidade fantasmagórica que habita uma realidade não local, longe da vida dos reles mortais. A verdade é que está divisão é equivocada, pois, o que de fato se opera na realidade humana é algo de outra natureza. Somos seres interdependentes. A nossa individualidade só faz sentido se analisada em relação aos demais seres. Nós exercemos a dita força narcisista sobre nós mesmos e em face dos outros indivíduos. Portanto, somos seres em meio à outros seres. Assim, a figura do indivíduo que vive em uma bolha liberal, e a imagem de uma sociedade que localiza-se em uma outra dimensão, diuturnamente disparando ordens com seu tridente, devem ser extirpadas do pensamento corrente.
Ditas estas palavras introdutórias, podemos afirmar que o capitalismo não vive uma crise. O que há é uma produção nunca antes vista, uma riqueza que jamais foi produzida e uma capacidade técnica extraordinária, que deliberadamente é canalizada para os habitantes do capitalismo de 1ª classe. Os seres que povoam as demais classes do sistema sonham em um dia chegar lá, sem saberem que não existem condições reais para tanto. Um dado que ilustra este argumento é o fato de os EUA, sozinho, com pouco mais de 5% da população mundial, consumir entre 25 e 30% de todos os recursos naturais do globo. No máximo 20% dos homens da terra poderiam viver neste banquete de mercadorias. Com a sua indústria cultural de massa, os habitantes da 1ª classe escondem este fato das demais classes e criam para elas no âmbito da representação uma amostra grátis do que eles vivem na prática. Temos, neste sentido, o paraíso e o inferno convivendo lado a lado. Bancos batendo recordes de lucratividade, e a imprensa noticiando a crise econômica do país, o déficit da previdência social, a necessidade da flexibilização dos direitos trabalhistas, a criminalidade que está fora de controle e etc. A 1ª classe assiste de camarote tudo isso, calculando quem estará em crise no próximo verão.
Segundo Rizzato Nunes, ex-desembargador do (TJ-SP), “as 225 pessoas mais ricas do mundo, ganham o que ganham 2,7 bilhões de pessoas. (...) O patrimônio dos 15 mais ricos, eles sozinhos tem um “PIB”, isto é, tem uma receita anual maior que todo PIB da África inteira. (...) A receita da General Motors anual era maior que o PIB da Dinamarca. (...). Quando nós olhamos para este poder econômico nós percebemos que o cidadão consumidor precisa tomar consciência do modo de produção, para de fato entender o que está acontecendo. As 100 maiores empresas do mundo possuem um faturamento anual que corresponde ao PIB dos 120 países mais pobres. Daí nós percebermos a influência brutal que as grandes multinacionais, mundiais, globalizantes, possuem sobre a política, a sociedade e o mercado". A estes dados podemos lembrar que 30% do alimento produzido no mundo é desperdiçado. Que 1 bilhão de pessoas passam fome no mundo, e continuaríamos dando exemplos aqui ad infinitum sobre estas tragédias.
O que conclui-se com este texto é que a crise divulgada pela grande mídia, como uma crise sistêmica do capitalismo, na verdade esconde uma realidade mais profunda. As multinacionais estão caminhando a passos largos para assumir o Estado para tirar proveito próprio. Hoje o que vigora não é mais a ideia do “Estado policial noturno”, que prestaria apenas os serviços básicos, como segurança e etc, deixando as demais áreas para a iniciativa privada, regulada apenas pela ordem natural do mercado. A realidade atual diz respeito a uma economia em que o Estado é parte fundamental no processo, e os grandes empresários querem tomá-lo para si, para criarem um mundo à sua imagem e semelhança. Eis que se apresenta o primeiro ato: a globalitarização. Parece que os homens em geral não possuem ingresso para acessar a 1ª classe do capitalismo. Temos que dizer um basta, e expressar posicionamentos que questionem o argumento de que a globalização é o único caminho possível.
Referências
THEODOR ADORNO - A INDÚSTRIA CULTURAL
NOBERT ELIAS - INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA
RIZZATO NUNES - CONSUMO E PUBLICIDADE NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA (YOUTUBE)
SILVIO TENDLER - MILTON SANTOS, POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO (YOUTUBE)
THOMAS PIKETTY - O CAPITAL NO SÉCULO XXI
THOMAS PIKETTY - O CAPITAL NO SÉCULO XXI