sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O ATOR SOCIAL


      Alguma vez você já se perguntou o motivo pelo qual faz diversas coisas no seu dia-a-dia sem ter a menor vontade? Se a resposta foi sim, seja bem vindo ao teatro da vida, pois, sem dúvida, você faz parte de um grupo que contempla milhões de atores sociais existentes no mundo contemporâneo. Os atores sociais estão por toda a parte, como por exemplo: no emprego, na família, nas ruas, faculdade, bares, relacionamento amoroso e etc. Em suma, somos atores sociais quando agimos de forma diferente daquela condizente com a nossa subjetividade (vontades e desejos peculiares de cada pessoa).
      A grande pergunta que o leitor pode estar fazendo nesse momento é a seguinte: em que momento começamos a atuar? Ou em outras palavras, quando deixamos de ser nós mesmos? A resposta para tal indagação somente será encontrada na reflexão individual, particular, de cada sujeito. Portanto, você terá que desde o momento em que acordar, até o que for dormir, exercitar a capacidade de realizar o autoconhecimento.
      Neste sentido, se você é mais um daqueles que quando o relógio desperta falta jogá-lo na parede, é um sinal bastante confiável de que a sua vontade não era acordar naquele momento. Entretanto, como ressalta um ditado popular "tempo é dinheiro". Se esta situação não lhe é estranha e alguma vez isto já aconteceu contigo, parabéns, você já foi um exímio ator social. E o que é importante ressaltar é que esse episódio, representa apenas o momento em que foram abertas as cortinas deste magnífico espetáculo. Pois, você ainda tem um dia inteiro de atuação pela frente.
     Obviamente que você não atua por vontade própria, é evidente que algo que está fora do seu controle está agindo neste momento, entretanto, "precisa ser assim", porque "é dia de branco" e é melhor esperar o final de semana para fazer o que vier na cabeça, na hora que optarmos.
     Depois de todas estas frases falsas e de estarmos convencidos que elas são verdadeiras, saímos de casa rumo às obrigações diárias. Chegando no emprego começa novamente o teatro, é bom dia para cá, risada de piada sem graça para lá, e principalmente fazer de conta que todos os colegas de emprego são legais e que naquele ambiente reina uma democracia entre todos. Democracia de caráter representativo, pois é o patrão que encarna a suposta vontade de todos. Caso você não cumpra com o roteiro, logo será taxado de anti-social e uma pessoa que detêm uma dificuldade muito grande para desenvolver trabalhos em grupo. Existe até mesmo a possibilidade que você seja encaminhado para um tratamento psicológico, ou para a rua mesmo.
   Ou seja, neste teatro, ou você segue as normas estabelecidas, ou é imediatamente retirado de cena.
      Após efetuar todas as atuações no trabalho, não pense que acabou, lembre-se que existe a faculdade, as demoradas conversas no MSN e no FACEBOOK, a convivência com os familiares ou mesmo com a namorada ou o namorado. O MSN e o FACE devem ser os melhores contadores de piada de todos os tempos, porque nunca se viu tanta risada. É kkkkkkkk, HAUSEAUSAUSEA, RSRSRSRS e por ai vai. Estes últimos exemplos de palco para a atuação social, deixo espaço para que cada um pense em seus papéis.
      Estamos em muitos momentos da nossa vida fazendo e sendo aquilo que não está de acordo com o que queremos. Está é a fonte de muitas frustrações e doenças humanas. Cabe a todos nós refletirmos se queremos continuar sendo atores ou se de alguma forma podemos ser quem realmente somos.



http://www.youtube.com/watch?v=C_Z92ee_rEw






      
     



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

"É com a mais doce emoção que me vem sempre a lembrança do virtuoso cidadão de que recebi a vida e que muitas vezes me entreteve a infância no respeito que vos era devido. Vejo-o ainda vivendo do trabalho de suas mãos e nutrindo sua alma com as verdades mais sublimes. Vejo Tácito, Plutarco, e Groutius, misturados diante dele com os instrumentos do seu ofício. Vejo ao seu lado um filho querido, recebendo com muitos poucos frutos as ternas instruções do melhor dos pais. Mas, se os desregramentos de uma louca juventude me fizeram esquecer durante algum tempo tão sábias lições, tenho a felicidade de experimentar enfim que, se alguma tendência se tem para o vício, é difícil que uma educação na qual entra o coração seja perdida para sempre". (Rousseau, Martin Claret, 2007)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O MUNDO É OUTRO MESMO




     Foi de muito longe que eu[1], humilde autor deste texto, na manhã de hoje (2/11/2011), após errar o horário da circular, pelo fato do horário que sou acostumado a pegar não existir nos feriados, avistei uma senhora acompanhada do que aparentemente era sua filha e o seu neto. Em pleno feriado, os três, assim como eu, tinham o mesmo intento, pegar a circular para Nova Esperança. Até ai tudo bem. A grande surpresa, que infelizmente mostra a nossa miséria socioeconômica, foi quando depois de algum tempo em pé perto do ponto de ônibus, a mulher que supostamente seria a filha da idosa sugeriu que: - mãe sente-se no banco para não se cansar.
      Neste momento o leitor mais atento deve estar indagando aonde este texto quer chegar, e possivelmente dando risada e pensando que o seu criador está com alguns parafusos a menos, jogando pedra em avião, ou mesmo correndo atrás de caminhão parado. Entretanto, acredito profundamente que pequenos casos cotidianos nos ajudam a entender muita coisa da sociedade em geral.
      É bom para que eu não canse o meu interlocutor que me dirija logo ao que ocorreu. Então vamos lá. Como eu ia dizendo, a acompanhante da senhora pediu para que ela se sentasse, no entanto, ao observar o banco, a simpática e madura mulher notou que existia outras pessoas sentadas e de costas para ela. Ao tentar contornar o banco para poder assim estar em uma relação de maior interação e respeito para com as outras pessoas, a filha interrompe a senhora e diz: - aonde a senhora vai? A senhora respondeu: - me sentar do outro lado para que eu não fique de costas para as outras pessoas. A filha e o neto em coro ressaltam: - não é necessário, se sente aqui deste lado mesmo. A experiente mulher um tanto quanto constrangida desabafa: - realmente o mundo é outro mesmo.
       Foi neste momento que percebi que estamos em uma sociedade doente, onde as pessoas não se conhecem e nem tem a mínima vontade de se conhecer e valorizar. O espanto e o constrangimento da senhora mostram o estranhamento que ela tem ao ter que pactuar com tal degeneração. As grandes cidades e o individualismo tornam as pessoas incapazes de notar a necessidade que temos de interagir com os demais homens. Eles não podem ser vistos como coisas, e sim como seres que tem uma subjetividade e peculiaridades.
      Neste caso, em que a senhora era seguida por seus familiares , certamente devido as suas debilidades físicas, mostrou que apesar dos mais jovens (entenda-se os que nasceram no seio dos valores humanos atuais) terem a força e a potência física, nem de longe possuem uma moral saudável. Este acontecimento nos mostra que não basta estarmos vivos e fortes, se agimos de maneira irrefletida. As nossas energias físicas estão sendo desperdiçadas em uma vida carente de sentido. E o estranhamento da senhora em relação a coisificação do ser humano presente nos dias atuais, é um grande alerta, pois, ela ainda consegue ter essa sensação. Entretanto, o grande problema é que estamos perdendo a capacidade de sermos seres humanos.




[1] Alexandre Gustavo da Silva


Resumo do texto "Tio Patinhas no centro do universo" do José de Souza Martins

     
        Segundo o texto “Tio Patinhas no centro do universo”, o desenho animado que já foi visto por sucessivas gerações de crianças, jovens e adultos, persuade o nosso intelecto a aceitarmos a lógica capitalista. Desta forma, o desenho adota uma pedagogia do imobilismo, onde o seu principal objetivo é manter as bases da sociedade capitalista, já que a mudança é inaceitável, tudo que vai contra o protagonista (Patinhas e representação explícita do capitalismo) é rechaçado.
       Parafraseando o próprio autor, “nesse pequeno mundo fantasioso não é apenas cada personagem uma coisa contemplada, mas o próprio leitor é coisa, repositório passivo que nele se integra para abrigar sem reflexão cada membro da sociedade dessa família.”
       Assim a animação analisada metamorfoseia-se de “desenho ingênuo”, em um influente meio de reprodução e disseminação mundial dos valores capitalistas. A figura do Tio Patinhas é praticamente “divinizada”, ele transforma-se em um paradigma de homem e de sociedade, ou seja, tudo gravita em torno de suas aspirações e concepções de mundo.
     É por isso que na animação, Patinhas não aceita nenhuma sugestão que os seus sobrinhos fazem. As únicas vontades válidas são as do Tio, afinal, ele é o exemplo a ser seguido e desta forma, não é plausível por parte dos seus sobrinhos argumentarem e muito menos criticarem as posições assumidas pelo seu tio.
      O talismã que o Tio Patinhas possui (a moedinha nº 1) é dotado de um poder simbólico muito grande, é através deste talismã que podemos entender o que o desenho passa a respeito dos possuidores e não possuidores de riquezas. Usando as palavras do próprio autor, o desenho passa a idéia de que há “os predestinados e escolhidos (...) a sorte representa, portanto, um chamamento mágico, apoiado em símbolos externos.” Ou seja, negligencia a dinâmica socioeconômica, colocando no lugar desta, uma superficial e simplista abstração.
       Em suma, o desenho é uma representação clara do capitalismo mundial, onde as demais ideologias são recusadas a todo momento. As relações humanas sedem lugar a uma relação entre coisas. Será que este desenho impõe os melhores valores em relação à sociedade para as nossas crianças, nossos jovens, nossos adultos?
     
     

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O ABSOLUTISMO NA INGLATERRA


Segundo Perry Anderson, a monarquia medieval da Inglaterra foi, sem dúvida, mais poderosa do que a da França. Esse fato confirma-se se levarmos em consideração as aventuras territoriais que este país empreendeu no continente, aventuras estas, que carregavam no seu bojo ambição e astúcia. A Guerra dos Cem anos, por exemplo, confirma esta afinidade da monarquia feudal inglesa pela expansão territorial.
No entanto, esta mesma monarquia que foi uma grande potência na idade média, com o advento da época moderna e a consolidação dos estados nacionais absolutistas, tornou-se obsoleta. Utilizando as palavras do próprio Anderson “a mais forte monarquia medieval do ocidente foi justamente aquela que produziu o absolutismo mais fraco e de menor duração”.
Outro fator que deve ser ressaltado em relação à monarquia medieval inglesa é que desde o século XIII existe o parlamento. Esta instituição de feição coletiva da classe dominante feudal inglesa limitava a atuação dos reis deste período, o que impedia uma maior centralização do poder. Após o reinado de Eduardo I no século XIII, ficou decidido que nenhum monarca poderia decretar estatutos sem a autorização do parlamento.
A monarquia feudal inglesa foi muito poderosa, isso devido principalmente a uma nobreza extremamente militarizada. Para Perry Anderson, ela diferenciava-se das demais pela sua cultura predatória e expansionista, como ele mesmo comenta, “nenhuma outra aristocracia feudal irradiou-se tão longe e tão livremente, enquanto conjunto de uma ordem, a partir de sua base territorial”.
Na virada do século XV para o XVI, com os Tudor no poder, especialmente Henrique VII, houve uma centralização do poder monárquico dentro da Inglaterra. Medidas como: limitar os privilégios privados, proibir as tropas particulares uniformizadas, subordinar o poder local ao poder monárquico, são algumas das ações que contribuíram para que pudesse ser plausível esta relativa centralização. Assim, Henrique VIII, no século XVI, herdou um poder executivo forte e com boas perspectivas de desenvolvimento.
Henrique VIII enfrentou alguns conflitos de grande importância para os desdobramentos históricos futuros de seu país, o principal deles foi o impasse com o Papa Clemente VII. Desavença essa oriunda do que Anderson chama de “crise matrimonial de 1527-28”, onde o Papa nega o pedido de divorcio do referido rei, a síntese de tal fenômeno foi o surgimento da Igreja Anglicana.
Para termos noção do que representou essa centralização citada acima, vou ceder a palavra ao próprio Perry Anderson, “Durante o seu período de vida, o poder pessoal efetivo de Henrique VIII no seio de seu reino foi perfeitamente igual ao de seu contemporâneo Francisco I na França”.
Nesta amplitude de complexidades e argumentos que alcançamos, surge uma pergunta que não quer calar: como explicar o declínio deste estado forte e centralizado ocorrido a partir da virada do século XVI para o XVII?
A tese do Anderson neste aspecto é a de que faltou na Inglaterra, “um aparelho militar substancial”. Enquanto monarquias absolutistas do continente fortaleciam-se e militarizavam-se, é o caso da Espanha e da França, a nobreza Inglesa, diferentemente dos tempos medievais, viu suas armas tornarem-se fracas e obsoletas.
Perry Anderson ressalta que “para as monarquias da renascença, a construção de forças militares na área metropolitana era uma condição indispensável à sua própria sobrevivência”. Este poder bélico era necessário, pois, agora ao contrário do que ocorreu nos tempos medievais, a ambição e astúcia estava no continente, assim as nações renascentistas sentiam-se altamente ameaçadas.
Já a situação bélica da Inglaterra neste período era muito complicada, pois, o transporte de milhares de soldados por mar até o continente, tornou-se caro e anacrônico. A Espanha e França não desenvolveram uma força bélica naval, o que deu aos ingleses nestes últimos tempos uma relativa tranqüilidade, fato que acentuou o desinteresse bélico por parte da nobreza.
Com a Elizabeth houve um desenvolvimento das técnicas de guerra, principalmente no sentido de ampliar o uso de armas de fogo e o aprimoramento dos navios de guerra. No entanto, “a inferioridade militar do absolutismo inglês, continuou a impedir qualquer expectativa expansionista no continente”, diz Perry Anderson.
E quando a dinastia dos Stuart assumem o poder e querem implantar um absolutismo que tinha como objetivo desprezar o parlamento e estender o poder central para além dos limites estabelecidos pelos Tudor, foi o momento culminante deste processo.
Não podendo concorrer com nações do porte da França e da Espanha, e enfrentando uma forte tensão política interna, principalmente por parte do parlamento que não aceitavam perder sua influência, a Inglaterra buscou encontrar outras áreas nas quais ela pudesse ampliar seu poder político, econômico e concomitantemente sua representação mundial, que visivelmente tornou-se debilitada no decorrer dos séculos XVI e XVII. Os países escolhidos para alcançar tal intento foram a Escócia e a Irlanda. Estas últimas tentativas de fortalecer e tornar o absolutismo inglês competitivo, novamente foram decapitadas com a revolução burguesa do século XVII.