Pensando no conceito de “herói” nas análises históricas, podemos concluir que essa é uma prática milenar, pois, desde os primórdios da civilização a história contada foi sempre a dos grandes políticos, e em grande parte a dos vencedores. Basta voltarmos o nosso pensamento para a história, que logo salta a nossa consciência nomes como: Homero, Hesíodo, Heródoto, Aquiles, Ulisses, Alexandre o Grande, Júlio César, Carlos Magno, Rei Arthur, Justiniano, Napoleão, Stálin, Lênin, Adolf Hitler e por ai vai. Qual o motivo que faz com que isso ocorra? O que faz com que as pessoas das camadas e funções subalternas sejam apartadas da História? Onde estão eles? Será que não deram nenhuma contribuição para os processos sociais? Ou indo mais longe, será possível pensar na existência da história sem eles?
Esta forma de ver a história como o palco que tem primazia apenas os “heróis” é muito antiga e vem desde a antiguidade. Basta pensarmos nesse período, que constatamos que de fato somente algumas pessoas isoladas nos vêm à mente, quem não se lembra de Cleópatra, a rainha do Egito? Os homens responsáveis pelos registros históricos durante séculos ficaram presos apenas aos grandes feitos políticos e econômicos, sempre escolhendo um ícone como o grande responsável. Foi somente no século XX que correntes historiográficas como a nova esquerda inglesa e a denominada Escola dos Annales, fizeram uma revisão histórica revolucionária, colocando como prioridade a “história de baixo para cima”, o que é o mesmo que dizer: estudaremos as massas, o camponês, o operário, as classes oprimidas.
Essa postura frente à história e as grandes personalidades tiveram uma atuação muito negativa para os homens que viveram no século XX. Os alemães provaram o culto ao líder no seu extremo, atingindo níveis que possivelmente não era possível transgredir. Quem conhece o mínimo da história do holocausto nazista e das atrocidades realizadas, pode imaginar o quanto é corrosivo a uma cultura a tentativa de homogeneização irrestrita e impensada. Nessas sociedades que cultuam ídolos, ou em outras palavras os “heróis”, a subjetividade se enfraquece e as percepções além das regras morais hegemônicas são praticamente extintas. O que é o mesmo que dizer que os indivíduos atendem a pressões externas que lhes são ditadas, portanto, eles a priori enxergam como verídicos todos os comandos dados pelas elites.
Logo, podemos afirmar que uma História que tenha como paradigma explicativo a exaltação dos “heróis”, está necessariamente fadada ao fracasso. Ela não aborda a sociedade em toda a sua complexidade, fazendo de um movimento essencialmente social, parecer que é síntese de ações de um único homem. O autoritarismo ronda estas localidades e estudos que legitimam esse tipo de postura, pois, a negação da capacidade das massas de serem produtoras de uma orientação socioeconômica, é similar a aceitar que eles nasceram naturalmente para viverem na dependência dos grandes “iluminados”. São identificados como aqueles que por suas glórias intermináveis possuem o poder de estar acima das limitações e fragilidades dos ditos homens vulgares. Estes homens eminentes têm a sua importância, e isso é inegável, entretanto, nem só de grandes homens é feita a história, muito pelo contrário.
Referências
A dialética do esclarecimento - Adorno e Horkheimer
Nazismo: o triunfo da vontade - Alcir Lenharo
Sobre História - Eric Hobsbawm
A escola dos annales - Peter Burke