quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

CORRIDA EXISTENCIAL


      Johnny, assim como ele faz todas as tardes, está correndo em torno do parque próximo a sua casa. O que era para ser apenas uma corrida para beneficiar sua saúde física está paulatinamente ganhando contornos mentais, sua psique está ficando alterada, ele visivelmente não está conseguindo controlar suas próprias emoções. Na primeira volta ele estava com uma postura tranqüila, agora que alcança a de número sete, a cada passo acelerado que dá, na mesma velocidade, e no mesmo compasso, uma lágrima escorre pelo seu rosto.
       Quando chegou ao parque, o jovem estava pensando em situações corriqueiras da vida. Lembrou do produtivo trabalho que precisava entregar para sua professora de marketing, pensou em sua namorada que minutos antes havia o intimado para assistir o que ele mentalmente definiu como badalado filme Crepúsculo. Chegou até mesmo a lembrar da frase exata proferida por ela após ele perguntar: “O filme é bom?”. Ela respondeu: “Sim, sim, todo mundo ta assistindo”. Tudo isso passou pela sua mente de forma instantânea, sem causar nenhum espanto, e muito menos qualquer tipo de reflexão mais elaborada.
       Neste momento tudo aconteceu. Sem querer ele esbarrou em um senhor morador de rua que passava pela calçada. Após o ocorrido Johnny apressou-se em indagar ao velho homem: “Como o senhor está?” Disse o velho: “Com o corpo dolorido e faminto. E com a alma sedenta de um mundo mais justo e humano”. O moço ficou desbaratinado com a resposta, e se viu em uma situação bastante atípica. Depois de alguns segundos ele fez uma nova pergunta: “Qual o seu nome?” “Gandhi exclamou o velho”.
        O rapaz ajudou o homem a se restabelecer e ficou visualizando de longe a sua partida. Tentou continuar correndo como se nada tivesse acontecido, mas naquela tarde, o que era para ser uma corrida do seu corpo, foi uma corrida existencial, que colocou em cheque todas as suas verdades.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

COTIdiano psicodÉLICO


 

O cotidiano e seu tédio
A fantasia reprime e aniquila
A vida expulsa
A alma convida

A casa como sempre
ChEiA – mÉDia / Vazia
Já a mulher: Colchão, janela e bacia
A rua derrete em demência
Sem sentido, calada, sozinha
Sua vida aparece na mente
Do homem que ela cria

Vivência da liberdade mundana
Que eu não vivi nem um dia
Tristeza, violência, ganância
Verdade, paz, alegria

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ALMA DE POETA - Alexandre Gustavo da Silva (2011)



Em todos os vales e em seus majestosos rios e bosques, vivem livres, agitadas, outras contentes, muitas contrariadas, almas de poetas.

Talvez a sua essência esteja próxima do animismo, certamente está, sem dúvida, sempre esteve.
Seus corpos, e as limitações dos mesmos, representam um cárcere para eles.

Como aquele pássaro vistoso e que a sua áurea emite vida e liberdade, os poetas procuram transcender a matéria e o espaço, para que assim, possam atingir definitivamente o que almejam, que nada mais é do que o belo.

Eles são uma antítese ambulante, um caminhante errante.
Estranham seus próprios pensamentos quando percebem que aquilo mesmo que lhes dá existência, é também o que os aprisiona.

Como ser sem existir?
E como existir sem ser?
Parece em muitos momentos que esse tal de belo lhe é inacessível em sua dimensão absoluta.
Entretanto, eles procuram, eles se satisfazem, com alguns fragmentos, enquanto os 100% vislumbram.

Foi nesse momento que ouvi um coro de poetas gritarem apavorados:
A liberdade surge da capacidade que os indivíduos possuem de ocultarem de si mesmos as correntes que os aprisionam.