Johnny, assim como ele faz todas as tardes, está correndo em torno do parque próximo a sua casa. O que era para ser apenas uma corrida para beneficiar sua saúde física está paulatinamente ganhando contornos mentais, sua psique está ficando alterada, ele visivelmente não está conseguindo controlar suas próprias emoções. Na primeira volta ele estava com uma postura tranqüila, agora que alcança a de número sete, a cada passo acelerado que dá, na mesma velocidade, e no mesmo compasso, uma lágrima escorre pelo seu rosto.
Quando chegou ao parque, o jovem estava pensando em situações corriqueiras da vida. Lembrou do produtivo trabalho que precisava entregar para sua professora de marketing, pensou em sua namorada que minutos antes havia o intimado para assistir o que ele mentalmente definiu como badalado filme Crepúsculo. Chegou até mesmo a lembrar da frase exata proferida por ela após ele perguntar: “O filme é bom?”. Ela respondeu: “Sim, sim, todo mundo ta assistindo”. Tudo isso passou pela sua mente de forma instantânea, sem causar nenhum espanto, e muito menos qualquer tipo de reflexão mais elaborada.
Neste momento tudo aconteceu. Sem querer ele esbarrou em um senhor morador de rua que passava pela calçada. Após o ocorrido Johnny apressou-se em indagar ao velho homem: “Como o senhor está?” Disse o velho: “Com o corpo dolorido e faminto. E com a alma sedenta de um mundo mais justo e humano”. O moço ficou desbaratinado com a resposta, e se viu em uma situação bastante atípica. Depois de alguns segundos ele fez uma nova pergunta: “Qual o seu nome?” “Gandhi exclamou o velho”.
O rapaz ajudou o homem a se restabelecer e ficou visualizando de longe a sua partida. Tentou continuar correndo como se nada tivesse acontecido, mas naquela tarde, o que era para ser uma corrida do seu corpo, foi uma corrida existencial, que colocou em cheque todas as suas verdades.
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